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Delzuita: Viagem inaugural |
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peterrrjr |
Enviada: Ter Jan 23, 2018 2:35 am Assunto: Delzuita: Viagem inaugural |
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Registrado em: Terça-Feira, 12 de Fevereiro de 2008 Mensagens: 21 Localização: Boa Vista - Roraima
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Bom. Pode parecer babaquice, mas compartilho o meu prazer com vocês.
Durante toda a minha infância posso dizer que fui agraciado com avô e avó. Família unida, cidade provinciana, terreno enorme, quintal, cachorro e etc. Moleque Raiz, vim ter video-game só aos 10 e com 04 fitas. O lance era jogar bola e sujar com os cachorros e quando aprontava correr e discar o telefone da vovó pra chegar a Super D10 com os velhos e assim escapar da peia.
Naquela época boa, a D10 tinha capota, a PRF nem existia aqui praticamente e ninguém, enchia o saco se tinham 20 pessoas na caçamba. Tínhamos 2 refúgios: uma casa no município de Pacaraima (conhecido na época como BV-8, o marco divisório entre Brasil e Venezuela por onde a BR 174 se conecta com o país vizinho) e um balneário a 20 km da cidade.
A programação era simples: se ia pra Pacaraima, farofa de frango com calabresa, gelo no isopor (carne), na caixa térmica (bebidas - a caixa ainda existe até hoje, uma coleman) e na garrafa térmica (água). Coloca a capota e forrava com uma lona grossa e lavada pra segurar a poeira e colocavamos os colchões no assoalho e ia: Meu finado Vô Alfredo na Direção, sua amada Delzuita ao lado e meu Tio Neném (falecido) ao lado. Atrás íamos minha mãe, meu irmão, eu e quem mais fosse convidado, em geral primas da mamãe e amigos. Eram 4 ou mais horas de pontes de madeira, cantoria, estrada de chão, tamanduás, vacas, cavalos, índios, máquinas arrumando a estrada. Quando chovia, era correr pra baixar as laterais da capota. Quantas risadas!
Quando o programa era o balneário: jogava quantos moleques coubessem ali e íamos embora pra farra! colocava um sofá de trança velho que tínhamos e íamos nos divertir. Era muita felicidade!
Durante anos, meus avós tiveram um restaurante, mais por ter o que fazer do que por necessidade. Possuíam um império em propriedades no que hoje é a capital do nosso querido Estado de Roraima, tendo o meu avô sido um dos primeiros civis a ter carro aqui, mas isso é um outro causo. As folgas desse restaurante eram as terças, dia de feira, quando éramos surrupiados de casa pra comer pastel e caldo de cana. Ficávamos aguardando o som inconfundível da D10 na rua pra correr pro portão.
Essa D10 chegou em nossas vidas antes mesmo de eu nascer. 1980.
Após chegar da concessionária local (Lirauto - ainda existe), foi daqui pra Manaus (estrada ainda levava mais de um dia). Partiu pela BR 319 (que tinha cerca de 4-5 anos na época parece), até Porto Velho e de lá seguiu até Xanxerê-RS (meu avô foi visitar minha mãe que estava morando lá com as tias) e depois foi até o Paraguai. Voltou pelo Rio de Janeiro e de volta pela transamazônica. Mais que um carro, ingrediente de aventuras. A base que unia a gente.
Ficou em nossas mãos todos esses anos. Em 2007, meu avô depois de muitas idas ao médico anunciou: não vão descobrir o que tenho, quero que reforme a D10.
Fizemos o que pudemos e um dia em março, um domingo eu fui em sua casa e ele falou comigo em tom de despedida. Triste, chorei ao telefone com meu pai sobre o medo da perda do grande patriarca e faltei a faculdade na segunda e à noite pedi em oração: Deus, quero ver meu avô chegando na D10 mais uma vez. Ele atendeu minhas preces. Acordei com o som da D10 no portão. Corri e fui pra feira com eles. Dois depois, meu avô partiria. Seu corpo foi então carregado na D10. Seria injusto, após 27 anos (1980-2007), negar a ela esta honra. Coincidência ou não, após estacionar a D10 na garagem na volta do cemitério, a alavanca de câmbio se partiu. Tenho o cupom fiscal do dia seguinte pra provar, pois tive que comprar outra pra poder tirar meu carro da garagem. Foi como se ela protestasse por estar longe dele.
No ano seguinte, 2008, meu tio, o mecânico da família, que me ajudou com meu fuqueta, foi meu pai e enfim, uma pessoa sensacional morreu tragicamente em uma operação policial que não deu certo. Ele era funcionário do Ex-Território de Roraima. Foi redistribuído pra polícia civil (sem qualquer treino - ele era eletricista) e na ida ao local foi morto. Ele tinha acabado de construir a casa dele, havia 2 dias, num município com o irônico nome de Bonfim.
Partiu. Foi avassalador. Eu estava chateado com ele e não quis o receber 3 dias antes. Inventei uma desculpa e me ocultei em meu quarto. Me arrependo, profundamente. A picape estava com ele. Havia saído daqui pra ajudar na mudança. E trouxe tudo de volta, nas mãos de outro tio. Passou um bom tempo esquecida na garagem. Eu jamais havia dirigido-a.
Em 2011 minha avó, com DPOC não podia mais ficar em casa. Precisávamos buscar O2 pra ela em balas e a picape foi trazida de volta a vida. Pela primeira vez tive que andar nela, mas somente por meros 3 km por vez, pois aqui tudo é perto da nossa casa. Como pesava. Errava (e ainda erro) a segunda. A folga no volante, a alavanca pra afogar o motor. Quantas vezes esqueci o farol ligado e tive que por no carregador a bateria. O descaso e o tempo fizeram seu papel, deteriorando a fiação, que sofreu inúmeros remendos ao longo dos anos. Apagar a mesma sem remover a bateria era sinônimo de cabo chupeta na próxima. O hodômetro há muito não funciona. Mas fez seu serviço até o falecimento de minha avó, em 2014. De lá, teve seu motor silenciado. O jardineiro limpava e cuidava dela, mas as lembranças eram muito ruins para eu ligá-la.
Ano passado, tudo mudou. Um tio veio da Guiana nos visitar e fazer tratamento aqui. É mecânico de motos e dos bons. Colocou a D10 e o Fusca pra andar. Ao mesmo tempo, meu irmão, médico, conseguiu uma fazenda. Recebemos de uma ação que se arrastava na justiça (sou advogado, mas atualmente curso medicina na UFRR - 4 ano) e então decidimos arrumar a fazenda. A picape foi sendo testada, mas faltaram algumas peças. Consegui um bom mecânico e no dia 03 de janeiro, tomei coragem e finalmente pensei: hora de voltar pra pista.
As 22:00 saí. A documentação está em dia, vistoria OK (foi feito a domicílio), mas o lacre e a placa ainda estão desatualizados (placa não reflexiva). Saí nesse horário pra evitar a PRF (uma pequena transgressão de minha parte, mas quem nunca ficou ansioso pra sair logo no carro "novo"?) e por medo de aquecimento do motor. Pneus novos, todos os óleos e fluidos trocados, engraxada, balanceada, fárois ok (gambiarra ok na verdade), extintor carregado (vai que), tanque cheio, toda a mudança na caçamba (de madeira hoje, mas estou garimpando uma original, de lata pra casar com a capota - que ainda existe), um rádio a pilha com pendrives com modão de 1980-90 e caí na estrada. Os primeiros 35Km fui seguido por minha mãe, que chorou tanto que quase não deixou seguir viagem. Sem hodômetro, eu estava acima da velocidade que ela me pedira: 70 no máximo. Eu estava a 100 e o perkão em torno de 65 graus C. Ela estava em casa! Após mais de 300 Km chegamos. Quando pensei nas coisas que deveria fazer ainda: elétrica, pintura geral, novo volante, caçamba, fui puxando minhas memórias de infância e de repente acionei o limpador de para brisas pra tirar a água do caminho. Não era lá fora. Era dentro. Era eu constatando que agora eu tocarei esse veículo. Essa amiga que está comigo desde antes de eu nascer, 31 anos atrás. É uma lembrança viva. Eu conheço o som desse perkins. É diferente dos outros. É nosso agora.
Eu entrei nesse fórum com uma idéia, pegar informações pra reformar só porque queria deixar bonitinha. Hoje quero cuidar dela pra que eu nunca esqueça esses momentos bons da vida. A vida simples.
Abri uma poupança agora pra ir salvando uns trocados pra reforma dela completa. E já estamos planejando refazer a viagem inaugural dela logo que eu me formar em 2020, mas com um carro de apoio e com ela um brinco (e se conseguirmos, com o bom e velho colchão na caçamba e a farofa de frango voando, e as multas pagarei com prazer.
Desculpem se me alonguei aqui. Acho que fiz esse post longo, mas foi de uma felicidade imensa dirigir aquele carro. 38 anos. Tanto tempo parada, só pus bateria e água no radiador, virei a chave e pegou. Fui de lá pra troca de fluidos e depois mecanico pra revisar freios e trocar alternador e ela tem, desde o dia 03 trabalhado e me dado muito lazer. Foi pra pesca, foi e voltou outra vez, e está firme e forte. Fiel e confiável. Como sempre foi. Apelidei-a de Delzuita (nome de minha avó). A paixão do meu avô. Nada mais justo. Forte abraço a todos! _________________ Peter - Fusca 1983 1300L (Alfredo) - Em recuperação!
D10 (Delzuita) - Ano 80, modelo 81 - em recuperação!
Carros são objetos ou familiares. Tudo depende da história que contam.  |
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César Oliveira |
Enviada: Ter Jan 23, 2018 6:25 am Assunto: |
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Registrado em: Terça-Feira, 27 de Dezembro de 2005 Mensagens: 10300 Localização: Rio de Janeiro
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Que tenha vida longa essa D-10 você citou as principais características desses nossos veículos, que para muitos são simples carros velhos, acredito que quase 100% dos carros atuais, se chegarem a uma vida de 31 anos, vão precisar bem mais do que combustível e bateria, para voltar a ativa.
Parabéns pela bela história, parabéns por re colocar essa d-10 no seu devido lugar que é rodando trabalhando e levando a galera para se divertir, esse é o ambiente dela.
Felicidades com a D-10, se puder colocar umas fotos dessa jovem senhora tenho certeza que será muito bom.
Valeu por compartilhar sua história. _________________ D-10CD/Andaluz/D-20CD - NX-400 falcon
César Oliveira |
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ewerton |
Enviada: Ter Jan 23, 2018 7:08 am Assunto: |
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Registrado em: Quinta-Feira, 27 de Fevereiro de 2014 Mensagens: 5105 Localização: Curitiba-Pr
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Bacana a história da Caminhonete. No aguardo de novos capítulos. _________________ Chevrolet D10 CD 1984 Perko is love.
http://www.picapesgm.com.br/ |
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adalberto |
Enviada: Ter Jan 23, 2018 1:24 pm Assunto: |
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Registrado em: Segunda-Feira, 20 de Dezembro de 2004 Mensagens: 7498 Localização: são paulo/ Pq. Edu Chaves/ZN
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Muito legal.
Parabens e coloca fotos da moça _________________ Adalberto
"Não tenha pressa mas não perca tempo" |
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Andreson Melo |
Enviada: Ter Jan 23, 2018 6:53 pm Assunto: |
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Registrado em: Quarta-Feira, 7 de Mai de 2003 Mensagens: 5858 Localização: União dos Palmares-AL
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Bela história, faltam fotos para ilustrar. Cuide bem dela _________________ EX-D20 CD 95 Custom S MAXION S4
Ducato Minibus 14
Onix 1.4 LTZ
MODERAÇÃO PICAPESGM
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magrão da topeka |
Enviada: Dom Fev 18, 2018 6:17 pm Assunto: |
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Registrado em: Sexta-Feira, 24 de Agosto de 2007 Mensagens: 466 Localização: Guarulhos
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Bela história. _________________ Sulam topeka :Ex viatura (saudades)
Gm Monza 1986 (titular absoluto da garagem)
Honda NX200 (a guerreira)
Opala 91 automatic - esse ja foi
Opala 72 totalmente original
A procura de uma outra Sulam |
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